Afinal de Contas

por Marcelo Soares

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Na ponta do lápis: Hora do Planeta é marquetagem barata

Por Marcelo Soares

(Escrito em 31 de março)

Todo ano, no final de março, a ONG WWF promove a Hora do Planeta, um evento para tentar conscientizar a população sobre a importância de poupar energia. Durante uma hora, das 20:30 às 21:30, o grupo pede que as pessoas conscientes desliguem as luzes de casa.

A causa é nobre, mas atos simbólicos não costumam ter resultados concretos além dos ganhos de imagem muito fugidios para as ONGs que os promovem. Lembram do “xixi no banho” de há três anos? Lembram quem promoveu? Eu precisei checar. Você passou a economizar água depois de achar pitoresca a proposta? Pois é, eu também não.

Você pode muito bem apagar a luz de casa por uma hora no sábado e passar o verão inteiro com o ar condicionado ligado quando está fora, para garantir seu conforto ao voltar. Pode apagar a luz de casa depois de girar a chave no seu utilitário beberrão para comprar pão a duas quadras de casa.

É uma marquetagem barata, porque tem custo muito baixo para quem dela participa. Não é para menos que prefeituras do Brasil inteiro, ainda mais em ano eleitoral, aderem à iniciativa. São Paulo é a adesão mais vistosa das 102 anunciadas pelo grupo.

Aqui, o Mercado Municipal deve ficar no escuro, ainda que os insolúveis congestionamentos da cidade deem cada vez mais prejuízo – queimando carbono até dizer chega, para manter o foco ambiental. Uma reportagem de Alencar Izidoro, publicada no ano passado pela Folha, dá uma medida disso:

José Roberto Augusto de Campos, professor de engenharia de motores do Instituto Mauá de Tecnologia, fez um cálculo que dá ideia desse prejuízo. Cada hora de motor ligado, no ponto morto, significa gasto de 1,65 litro de gasolina ou 2,1 litros de álcool.

Assim, quem percorre o corredor das avenidas Adolfo Pinheiro, Santo Amaro e São Gabriel no pico da tarde, por exemplo, gasta cerca de R$ 400 por ano apenas para deixar o carro ligado no trânsito.

Como a marquetagem barata não torna a causa menos nobre, seguem algumas dicas de como economizar tanta (ou mais) energia recorrendo ao diabo dos números.

1.       Pegue sua última conta de luz e veja quantos kWh gastou no mês. Em São Paulo, é considerado baixo o consumo de menos de 220 kWh por mês. O meu deu 260 kWh.

O que é essa medida, o quilowatt-hora? Ela representa a soma da energia gasta pelos seus aparelhos domésticos durante o tempo em que estiveram ligados.

Uma lâmpada de 60 watts, acesa durante uma hora, consome 0,06 kWh. Se ficar acesa durante mil horas, ela consume 60 kWh.

2.      Alguns aparelhos da sua casa, como a geladeira, ficam ligados o dia inteiro. Outros, como as lâmpadas, provavelmente só por algumas horas do dia. Mas digamos que o consumo de energia se concentre todo em 10 horas por dia, levando em conta os 31 dias do mês de março. A faixa de horário escolhida pela ONG é uma de alto consumo.

Para saber quantos quilowatts você gasta por hora, em média, divida seu consumo da conta de energia de janeiro por 31 e depois por 10.

Eu, se participasse e desligasse até a geladeira, economizaria em média 0,83 quilowatts. Parece pouco, mas somado aos seus 0,7 e aos 1,0 do vizinho acabam virando bastante coisa. Mas a que isso se compara no dia-a-dia?

3.      Uma maneira é olhar o consumo de eletrodomésticos. A Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec) colocou em seu site, há algum tempo, uma tabela de consumo médio de diferentes equipamentos. Para facilitar sua vida, criei esta planilhaonde você pode digitar seu consumo de energia e comparar com o consumo de vários equipamentos domésticos.

Segundo ela, os 0.8 kWh que eu poupo desligando tudo em casa por uma hora equivalem a menos de uma hora de ar condicionado – um aparelho que eu não faço questão de ter em casa, economizando assim uma quantidade bem razoável de kWh no verão.

4.      Seu carro não é ligado na corrente elétrica, mas o escapamento emite mais gás carbônico do que a tomada. Na Europa e nos EUA, onde a energia elétrica é de origem térmica, acender a luz é emitir carbono indiretamente. No Brasil, onde a maior parte da energia é hidroelétrica, isso é bem menor.

Como comparar o consumo do seu carro ao de energia elétrica? Convertendo tanto os gastos de energia do combustível quanto os gastos de energia da luz para outra unidade, o joule. Calcular isso à mão é complicado. Por isso uso um conversor como este. Um kWh, segundo ele, equivale a 3600 quilojoules. Ou 3,6 milhões de joules.

Segundo o HowStuffWorks, um galão de gasolina (3,75l) tem 132 mil quilojoules. Portanto, um litro de gasolina tem 35,2 mil quilojoules. Ou quase o equivalente a 10 kWh. Ficar uma hora no engarrafamento, segundo o engenheiro entrevistado pelo Alencar, gasta 1,65 litro de gasolina, ou 58 mil quilojoules.

Convertendo uma hora de engarrafamento em energia elétrica, o desperdício seria equivalente a 13,3 kWh – ou o que eu gastaria em mais de dezesseis horas de consumo médio. Ou seja: deixar o carro em casa por um dia só poupa ao planeta o equivalente a anos e anos de sua participação nessas iniciativas marqueteiras simbólicas.

Você pode argumentar que o dia mundial sem carro é só em 22 de setembro. Mas essa é outra iniciativa marqueteira. O que realmente faz a diferença são os hábitos. Fazer pequenas mudanças neles é muito mais eficaz e não tem dia marcado.

Desligar a luz por uma hora, ficando em paz com sua consciência planetária, para depois pegar seu carro ou ligar o ar condicionado, é mais ou menos o mesmo que pensar que um cheeseburger é um alimento balanceado porque tem carne, laticínios, farináceos e salada.

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