Afinal de Contas

por Marcelo Soares

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Marcelo Soares escreve sobre dados e o que eles podem revelar

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A importância da prática

Por Marcelo Soares

Ontem à noite, a Cristina Moreno de Castro me enviou a dúvida de uma leitora do Novo em Folha, sobre o que ela poderia fazer para aprender estatística. A resposta será postada lá no blog do Treinamento, mas vale a pena lembrar um aspecto que faltou desenvolver lá: a prática.

Steve Morse, guitarrista do Deep Purple desde 1994, foi eleito cinco anos seguidos como o melhor guitarrista do mundo pela revista Guitar Player, nos anos 80. Seu superpoder secreto: a prática constante. Morse carregava uma guitarra pendurada no pescoço até quando era co-piloto de avião. Assim, nos tempos mortos, ficava praticando escalas sem usar o amplificador. E é assim o tempo todo, até dando entrevistas.

Muitos alunos que já tive assistiram minhas aulas sobre planilhas e matemática e captaram bem o conteúdo. Só que não usaram logo depois, devido à correria do dia-a-dia, e acabaram esquecendo. Eu também já aprendi muita coisa útil que por falta de prática acabei esquecendo.

Sempre recomendo que eles procurem fazer planilhas simples que tenham de atualizar periodicamente, sobre assuntos que lhes interessem para facilitar a absorção. De preferência usando campos comparáveis e classificáveis. Exemplos:

  • Seu orçamento de casa (Data, nome do gasto, tipo de gasto  – alimentação, transporte, leitura… -, valor, forma de pagamento). Se você também mapear seus recebimentos, pode ver facilmente quando vai entrar no vermelho. Quando acumular um mês, você faz um relatório por tipo de gasto e vê com o que está gastando demais para descobrir onde cortar.
  • Os shows da sua banda favorita ou os jogos do seu time (data, local, escalação, resultado, renda se tiver). Perna-de-pau até para assistir futebol, faço isso com todos os shows da minha banda favorita, depois de ter obtido uma lista com todos os que eles fizeram desde 1968. Pude detectar exatamente o momento em que o “novo” guitarrista ultrapassou o guitarrista fundador da banda em número de shows e descobri outras curiosidades ali. Virei até personagem anônimo da coluna do ombudsman certa vez por causa dessa planilha.
  • As calorias que você consome (data, refeição, item – café, pão etc -, calorias). Em três meses de uso diário, perdi seis quilos. Como tudo o que eu quero, mas a planilha ajuda na moderação. Quando dá vontade de pegar um segundo bombom, lembro que vou ter de anotá-lo. Uso um aplicativo de iPad para ajudar a calcular as calorias. No fim do mês, exporto a planilha para analisar no computador.
  • Os filmes a que assistiu ou livros que leu (título, autor, data de início, data de fim, tema, sinopse, sua avaliação). Minha mulher é cinéfila de carteirinha. Ela já mantinha um registro assim num caderno. Agora, usa uma planilha.
  • Lista de alunos, se for professor (escola, turma, nome, e-mail, nota da prova 1, nota da prova 2…). Faço isso sempre que dou aulas. Funciona melhor do que as listas de chamada em papel, já que é possível calcular automaticamente a média das notas ou ponderar notas e presenças.

Foi por isso que fiz o desafio de sexta-feira 13 com uma planilha dos filmes de Jason Voorhees. O tema pode ser bobo, mas prática é coisa séria.

Às vezes a prática pode parecer bobinha, mas ela é importante para não enferrujar e para fixar o aprendizado. É lógico que Steve Morse conhece desde a adolescência todas as escalas possíveis de guitarra, em todos os modos, mas a questão é outra: é que só a prática leva à perfeição. E a perfeição final é inatingível.

Com o tempo, você acaba acrescentando coisas. Minha planilha do orçamento começou simplinha, aí um dia criei um gráfico que atualizava automaticamente conforme eu atualizava os números. Aí vieram tabelas dinâmicas e somas condicionais. Estou sempre inventando alguma coisa, até porque seria um saco ter a planilha sempre com a mesma cara ano após ano.

Malcolm Gladwell diz que os Beatles só se tornaram os Beatles porque durante alguns anos no início da carreira tocaram noites a fio, por até oito horas seguidas, em cabarés de Hamburgo. Precisavam improvisar, precisavam ter repertório. Pela repetição das músicas alheias, acabavam absorvendo as sutilezas de composição.

É assim com música, futebol, texto, matemática, planilhas, programação ou seja lá o que fizer sua cabeça.

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