Você passa mais tempo no trânsito do que com sua família

Este post é o quinto da série “Olho no Censo”, que verifica curiosidades disponíveis na riqueza de dados dos Resultados Gerais da Amostra.

Sexta, a cidade chegou ao seu recorde de congestionamento, com 295km na medição da CET e 562 km na medição da Maplink. Eu brincava com os colegas: mais gente precisa tirar o carro de casa para chegarmos logo aos 300. Mas faltou patriotismo dos motoristas para chegarmos ao número redondo e garantir mais um orgulho para São Paulo.

Hoje, Cotidiano traz uma reportagem que faz as contas: o paulistano perde 17 dias por ano no trânsito. Isso é mais que o dobro dos feriados nacionais (8), num país notório pela quantidade de feriados.

LEIA MAIS
Paulistano desperdiça 17 dias por ano no trânsito (aberto assinantes)
Planilha com os tempos de deslocamento por cidade (Google Docs)

O dado usado na reportagem de hoje vem do Censo. Segundo os resultados da amostra, no município de São Paulo quase 6% dos moradores levam mais de duas horas se deslocando para o trabalho. Para fugir de aluguéis caros, ou comprar um imóvel em conta, muita gente vai morar longe do trabalho. Aí acontece o seguinte: 15% dos moradores de Itapecerica da Serra, uma cidade ao lado de São Paulo, levam mais de duas horas para ir e voltar do trabalho.

Embora em São Paulo mais gente sofra com a tranqueira, não é só aqui que se leva tanto tempo no deslocamento: ao todo, apenas em 28 cidades no Brasil ninguém na amostra do IBGE levava mais de uma hora em seus deslocamentos. A maioria delas é de cidades pequenas na região Sul.

Não existe solução simples para o problema, muito menos existe solução que não passe por restringir a quantidade de carros em circulação. Mas os engarrafamentos são um orgulho tão grande para São Paulo que meramente pensar em tocar no assunto dos pedágios urbanos leva a reações emocionais. O ex-governador e pré-prefeitável José Serra andou dizendo outro dia que o prefeito que fizesse isso arriscaria um impeachment.

(Como todo motorista vota, e como os motoristas paulistanos adoram seus carros por mais stress que lhes causem, imagino que prometer pedágio urbano não deva atrair muitos votos mesmo. O que não significa que essa questão não deva ser debatida no seu mérito por quem deseja administrar a cidade.)

Nessas horas, é sempre fácil culpar “o governo, que não faz nada”. E pouco faz mesmo. Mas será que a responsabilidade é toda só dele? Ou só de um deles? Será que a gente não tem um pouco de responsabilidade em reduzir o nosso próprio sofrimento também?

Não tenho solução no bolso para a cidade, e mandem me internar se um dia eu disser que tenho. Desconfio sempre quando alguém tem UMA solução pronta na ponta da língua para um problema complexo (“a solução é a bicicleta”, “a solução é o metrô”, “a solução é…”). Só sei que não se chega a uma situação caótica assim sem um esforço coletivo e suprapartidário entre diferentes esferas do governo, empresas e cidadãos. Minha distribuição das responsabilidades:

  • Governo federal: incentiva a venda de carros e historicamente colaborou pouco com a expansão de meios de transporte público mais adequados às grandes cidades brasileiras.
  • Governo estadual: é o responsável pelo metrô, um dos grandes desafogadores do trânsito, mas demorou tanto a expandi-lo que qualquer pouca expansão que crie hoje em dia acaba lotando rapidinho.
  • Governo municipal: permite estacionamento em praticamente todas as ruas, o que reduz o espaço para circulação dos carros que estão na rua e ao mesmo tempo estimula o motorista a circular, porque dependendo não terá custo para parar. Proibiu a circulação dos fretados em parte da área urbana, incentivando trabalhadores a ir de carro. Expandiu praticamente nada os corredores de ônibus.
  • Empresas: início e fim de expediente, na maior parte dos casos, se concentram sempre nas mesmas horas, o que concentra a demanda pelas ruas (já sobrecarregada). Construtoras têm uma responsabilidade extra pelo engarrafamento. Há alguns anos, a Folha noticiou que novos empreendimentos imobiliários na cidade eram feitos sem levar em conta a capacidade das ruas do entorno, causando engarrafamentos até na garagem do prédio. Mais recentemente, o jornal mostrou que os empreendimentos trava-trânsito se concentram na área nobre de São Paulo.
  • Cidadão: mora longe do trabalho, ou trabalha longe de casa. Pode não ter muita escolha nisso, nem muita escolha nos horários, mas tem escolha em como ir para o trabalho. Lógico que na maior parte do tempo o cidadão é vítima desse quebra-cabeça cruel que é o trânsito. Mas ao mesmo tempo quem está preso no trânsito é parte do problema. E, se você pega o carro até para ir à esquina, certamente você é uma engrenagem importante dele.

Cada um tem sua forma de viver com isso, equilibrando do melhor jeito que consegue as bolas que caem no seu colo.

No Twitter, o @wilerson me contou que se mudou para mais perto do trabalho quando fez a conta de que perdia um mês por ano no trânsito. O @kadu_nogueira contou que seus colegas o odeiam porque mora a 100 metros do escritório. O @yusana trabalhou por um ano no mesmo prédio onde vive – mas engordou 20 quilos no período.

Eu nunca quis aprender a dirigir e faço questão de morar perto do trabalho (ou trabalhar perto de casa). Li a frase do título deste post pichada num muro da Consolação, há alguns anos, e nunca me saiu da cabeça. Resume bem o que eu penso da mera ideia de ficar preso no trânsito todo dia.

Conte aqui nos comentários o seu jeito pessoal de lidar com esse problema.

OLHO NO CENSO:
Bem casado é quem bem vive (28.abr)
No trabalho, menos crianças e mais velhos (1.mai)
Tá em casa (4.mai)
Botando as mães no meio (12.mai)
Você passa mais tempo no trânsito do que com sua família (3.jun)

About Marcelo Soares

Marcelo Soares é jornalista, fascinado por dados e pelo que eles dizem sobre nós
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14 comentários feitos no blog

  1. Guilherme Madeira comentou em 23/04/13 at 09:39 Responder

    Não é todo mundo que pode ter moradia e local de trabalho próximos um do outro. É um privilégio de poucos.
    Muitos não possuem condições financeiras de adquirir ou alugar um imóvel no bairro onde trabalham ou onde estudam, por isso se opta pelos bairros periféricos e pelas “cidades-dormitório”.
    Por outro lado, não é fácil se conseguir vagas de emprego na sua área de atuação perto de sua casa, e também muitas repartições públicas não oferecem postos de trabalho próximos a residência do trabalhador.
    Eu, particularmente, já estou acostumado a passar uma fração de tempo do meu dia me deslocando na cidade entre casa-trabalho-faculdade-casa. Ando de ônibus. Não é a melhor coisa do mundo, às vezes tem seus “apertos”, mas, de certo modo, o serviço é bom.
    Ainda não tenho CNH, mas em breve terei. Serei mais um a “inchar” o trânsito de Porto Alegre… hehehe. Mas, sempre que possível, recorrerei ao transporte público.

  2. Pingback: Folha de S.Paulo - Blogs - Carrocentrismo versus civilização | Afinal de Contas

  3. Anderson Correa de Araujo comentou em 20/06/12 at 02:07 Responder

    Blogueiro, esqueceste de destacar o seguinte dado, que considero essencial para compreendermos o problema:

    _Sampa copnsome a quarta parte do combustivel vendido no país! Trata-se de uma enorme quantidade de dinheiro concentrada nas maos de um pequenino grupo, grupo este que financia a eleição d maioria dos politicos que governam SP, e portanto, definem o abandono das soluções necessarias, e incentivo a politicas que impulsionam a venda de carros, como a atual redução de IPI do governo nacional. Um incentivo ao consumismo ignobil que segue na contramao do atual paradigma ambiental. Lembre tb que a poluição de SP, que mata mais do que AIDS e tuberculosa juntas, vem dos veiculos. Portanto, perde-se um tempo de vida bem alem do tempo contado no transito.

    Os lucros deste pequeno grupo, vem desde tempos da abertura da nefasta Transamazonica, que significou a maior devastação florestal que a Amazonia jah viu. Sempre tivemos um planejamento centrado na abertura de custosas estradas, em detrimento de ferrovias e navegação de cabotagem(esta, abandonada a partir da ditadura, num país que tem o privilegio de possuir 8 MIL Km de costa!!! comete a estupidez abissal de abandonar este meio de transporte!).

    _Eh comum encontrarmos alguem a dizer que Maluf era inteligentissimo, pois se antecipou ao futuro, construindo pontes e marginais. Inteligente seria se investisse massivamente em ferrovias, metro, onibus , planejamento urbano que favorecesse deslocamento casa/trabalho, entre outras soluções que demandam planejamentos transversais, envolvendo varios profissionais. Mas o que fez um Maluf, segue a cartilha do pequeno grupo financeiro, do qual o governo atual permanece sendo um mero agente.

    Por fim, temos uma caricatura que ilustra bem a bestialidade da situação, que caracteriza a estupidez dos endinheirados dominantes, assim como a passividade debil daquele que nao consegue refletir, pensar:

    Preso no engarrafamento, perdendo tempo de vida e saude em meio a poluição, e/ou sendo assaltado em mais um arrastao, o tolo olha para o helicoptero e se gaba por esta outra quantidade: temos a maior frota de helicopteros! Pensa assim, sem perceber que dentro da aeronave estao os politicos e 0,001% da população favorecida pelas politicas economicas e planejamentos desastrados que sustentam o caos!

    Imprensa estadunidense jah publicou materia na qual manifesta espanto com a maneira com que o helicoptero eh usado feito taxi em SP, enquanto nos EUA e paises europeus, esta aeronave eh utilizada em deslocamento para cidades do interior ou emergencias. Por aqui, o helicoptero eh mais um simbolo das soluções burras que nossas oligarquias encontram para “resolver” seus privados problemas, nao deixando d investir no grande problema que sustentam a decadas, no grande e coletivo problema que mata e adoece a população e cidade.

    O homo-imbecilis reina, o planeta caminha na direção do colapso, e o ignobil consumismo segue a todo vapor, tocado pelas pessoas-mercadorias.

    Ah, eu tb nao sei dirigir, e moro pertinho do centro.

    Abs,
    Anderson

    ps: Leiam “Confissoes de um Assassino Economico” de John Perkins ed.Cultrix e “Bilhoes e Bilhoes” de Carl Sagan

    • Marcelo Soares comentou em 20/06/12 at 11:02 Responder

      Boas observações. Volte sempre!

  4. Fernandes comentou em 11/06/12 at 02:59 Responder

    Qdo morava em SP fiz estas contas e cansei de morar longe. Queria fazer um curso de ingles e estudar mais p provas na facu, entrentanto gastava mais tempo no transito. Para os calculos, além do q o pessoal colocou acima, hoje incluo tb quanto custa minha hora trabalhada, p decisão de onde morar. Além disso, baseado em “externalidades”, tentar quantificar dados “qualitativos” como mais tempo p lazer, esporte ou não fazer nada, ja q estes “tem preços” p minha saude e bem estar.
    .
    Qto ao transito, disse bem, não ha soluções prontas. Ja q planejamento urbano, alem de transporte publico, tem q considerar espaços p areas verdes, p ciclovias c pistas excluivas, cultura do carro, espaço p rios qdo em cheia sem causar grandes prejuizos, etc,etc. É preciso oferecer alternativas alem de carro e onibus. Visitar outras cidades no mundo vemos q ha soluções sim p reduzir o tempo no transporte em 20-30-40%. So faltam tecnicos no poder p tentar redduzir esta aberração.

  5. marcos comentou em 09/06/12 at 17:58 Responder

    gostaria de saber qual o titulo do documento completo com esta tabela no site do ibge. Obrigado

  6. Jaque comentou em 07/06/12 at 17:12 Responder

    Aqui na folha somos bloqueados o tempo todo e algumas vezes nem consegue mais fazer comentario..não sei do que estão reclamando…

    • Marcelo Soares comentou em 08/06/12 at 12:14 Responder

      Oi, Jaque. Dependendo da minha correria, demoro um pouco às vezes para aprovar o comentário, mas aprovo. Tem um bloqueio pra evitar spam e baixaria – neste blog, a caixa de comentários é um espaço de diálogo. Faço questão de responder todos os que puder.

  7. Álvaro comentou em 04/06/12 at 15:58 Responder

    Concordo que ao cidadão comum também deve ser atribuída parte da culpa pelo caos do trânsito, mas jamais ouvi alguém dizer que mora longe do trabalho porque gosta ou porque quer.

    Às vezes as pessoas se esquecem que o rendimento médio de um trabalhador paulistano é inferior a 2 mil reais. Com esse salário, como alguém consegue pagar aluguel no Centro ou nas áreas nobres da zona sul/oeste (onde se concentram o grosso dos empregos, em especial no setor de serviços) e sustentar uma família?

    • Marcelo Soares comentou em 04/06/12 at 16:26 Responder

      Eu mencionei que isso nem sempre é um fator sob controle. Mas ainda assim há um grau de arbítrio. Pessoalmente, fiz as contas verta vez e cheguei à conclusão de que o que eu gastaria com um carro seria bem mais do que a diferença entre alugar um pouco mais caro perto do trabalho e alugar um pouco mais barato longe do trabalho.

      • Álvaro comentou em 04/06/12 at 17:40 Responder

        Considerou também o custo de escolas, de restaurantes, de serviços de maneira geral? Um encanador, um curso de informática ou um frango assado de padaria têm preços diferentes em Guaianazes e na Casa Verde.

        Reitero: ninguém mora longe do serviço porque gosta porque não sabe fazer conta. Ninguém sujeitaria um filho ou a esposa a essa tortura diária sem uma boa razão.

        • Marcelo Soares comentou em 06/06/12 at 11:46 Responder

          Concordo apenas em parte, Álvaro. Lógico que muita gente não tem muita margem de escolha. Mas muita gente que tem também não faz contas. E é claro que se todo mundo fosse morar na região central os alugueis disparariam ainda mais. Ainda assim, quis chamar atenção para um cálculo que é válido no nível individual. E continuo achando que ter carro em São Paulo é pagar em prestações por um fator forte e desnecessário de estresse, e que um carro a mais na rua é um carro a mais engarrafando a rua.

          (Desculpe a demora em publicar e responder seu comentário – dias corridos no trabalho principal.)

  8. Wilerson comentou em 03/06/12 at 22:47 Responder

    E a minha conta na ocasião foi modesta – à época, eu perdia pelo menos 4h por dia para ir e voltar do trabalho. Em uma semana, são 20h. Em 46 semanas (52 do ano, menos 4 de férias, menos 2 de feriados, emendas e arredondamento), 920h, ou 38.3 dias, ou 5 semanas e um dia.

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