Afinal de Contas

por Marcelo Soares

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Marcelo Soares escreve sobre dados e o que eles podem revelar

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As marchas são um bom sinal

Por Marcelo Soares

Minha ex-aluna Nanni Rios foi bloqueada no Facebook porque postou uma foto da Marcha das Vadias de Porto Alegre. Agora, preciso aprovar qualquer comentário que ela posta para mim, porque foi considerada spammer.

Luka Franca, a quem entrevistei no tempo da MTV, foi bloqueada porque postou uma foto sua, com os seios à mostra, na marcha de São Paulo. Meu colega Alexandre Orrico foi bloqueado no Facebook porque compartilhou uma reportagem do Lucas Sampaio com a foto da Luka – esta aqui ao lado.

Muita gente não entende por que raios as pessoas vão à rua reclamar por coisas tão aparentemente pequenas. Como o leitor Saulo Marino, de São Carlos:

“O que acontece é que hoje em dia está na moda ir para a rua reclamar. É marcha dos usuários de maconha, dos gays, das feministas, dos libertários… o problema é que esqueceram de avisar à população do que está acontecendo e por que está acontecendo. Esses movimentos vivem dentro de uma bolha ou viraram festa e perderam a identidade, esta é a verdade.”

Por que ficou “na moda ir para a rua reclamar”? Um estudo feito por um economista da Universidade Harvard e dois do World Justice Project sugere uma parte da resposta. A “Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar sobre Atitudes, normas culturais e valores em relação a violação de direitos humanos e violência”, publicada nesta semana pelo Núcleo de Estudos da Violência da USP, sugere outro pedaço.

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“Education and quality of government” (PDF)
“Pesquisa nacional, por amostragem domiciliar, sobre atitudes, normas culturais e valores em relação à violação de direitos humanos e violência” (PDF)

O estudo do World Justice Project cruzou dados da Unesco, do Barômetro da Transparência Internacional e da International Crime Victims Survey. Os autores encontraram uma forte correlação entre o grau de educação da população e a propensão a reclamar quando encontram más condições de vida ou maus-tratos por parte das autoridades.

Cidadãos mais escolarizados são mais conscientes dos seus direitos, e portanto mais propensos a registrar queixa quando sofrem crimes ou injustiças. Mesmo quando é grande a chance de as queixas não serem atendidas, o crescimento no volume de queixas tem ao menos um pouco mais de chance do que a inércia de constranger as autoridades a trabalharem direito.

Nesse estudo, o Brasil está bem no meio da escala. Falta educação, falta qualidade de governo. Mas está melhorando o acesso à educação – em 2010, 27% dos brasileiros tinham pelo menos o segundo grau completo, contra 16% em 2000. Se a escolaridade está ligada à propensão para o protesto, então é simplesmente natural que um país mais escolarizado acabe reclamando mais. Você pode não se emocionar com as causas dos protestos, lógico – é um direito tão sagrado quanto o de protestar.

Já o estudo do NEV ficou popular ontem nos noticiários. Imensamente detalhado, ele tem 322 tabelas resumindo as atitudes dos brasileiros de 11 capitais em relação a aspectos dos direitos humanos: liberdade de imprensa, liberdade de manifestação, rejeição à tortura, se apanhava na infância e o que acha de apanhar na infância. As notícias sobre o estudo, porém, focaram basicamente no aumento do apoio dos brasileiros ao uso da tortura como forma de obter informações para investigações policiais.

Uma das coisas interessantes que o estudo traz é que cresceu na sociedade a opinião de que protesto não é crime.

Nos 11 anos entre 1999 e 2010, caiu a quantidade de gente que acha que os manifestantes mais exaltados devem ser presos em passeatas de estudantes, protestos de operários, passeata de professores por melhores salários e resistência de camelôs à retirada de barracas.

Hoje, dos moradores de capitais ouvidos na pesquisa do NEV, 65% acham que a polícia não deve fazer nada em passeatas de estudantes e 68% acham que a polícia não deve fazer nada em passeatas de professores. Em 1999 ainda havia 0,2% que pensavam que era lícito à polícia atirar e matar numa passeata de estudantes. Hoje, é zero redondo.

Passeata de estudantes     2010 1999
Não fazer nada 65,4 48,2
Prender os mais exaltados sem usar armas 31,4 46,4
Atirar e matar 0 0,2
Greve de operários     2010 1999
Não fazer nada 58,2 53,1
Prender os mais exaltados sem usar armas 38 42,4
Atirar e matar 0 0
Camelôs resistentes à retirada de barracas  2010 1999
Não fazer nada 28,7 27,4
Prender os mais exaltados sem usar armas 60,9 61,9
Atirar e matar 0,2 0,2
Rebelião em um presídio 2010 1999
Não fazer nada 8 5,1
Prender os mais exaltados sem usar armas 35,2 32,6
Atirar e matar 5,4 7,9
Passeata de professores por melhores salários  2010 1999
Não fazer nada 68,1 62,2
Prender os mais exaltados sem usar armas 28,5 35,2
Atirar e matar 0,2 0
Ocupação de terras pelo MST   2010 1999
Não fazer nada 29,5 27,8
Prender os mais exaltados sem usar armas 55,7 54,6
Atirar e matar 1,1 1

A pesquisa do NEV não quebra os dados pela escolaridade dos entrevistados, infelizmente.

Passe os olhos nos dois estudos, com tempo. Vale a pena para pensar em que país temos e que país queremos ter. Eu, pessoalmente, acho legal um país em que mulher tem o mesmo direito de homem de andar sem camisa. Acho importante um país em que o cidadão possa protestar exigindo seus direitos individuais, acima de tudo quando não prejudicam ninguém. (O Facebook, porém, discorda, o que é uma lástima.)

Aproveite para contar aqui nos comentários o que você pensa a respeito.

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