Afinal de Contas

por Marcelo Soares

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Marcelo Soares escreve sobre dados e o que eles podem revelar

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A Parada Gay, o Datafolha e ‘Os Sapos’

Por Marcelo Soares

Todo ano era assim: a Parada Gay acontecia, num evento de público impressionante; os organizadores davam um número na casa dos milhões – a estimativa chegou a cinco milhões em 2008 – e todo mundo publicava. No dia seguinte, repetia-se o poema “Os Sapos“, de Manuel Bandeira: “Não foi! Foi! Não foi!”. O problema é que número não é questão de opinião – é questão de medição.

Fã de rock desde sempre, eu estava na facção do “não foi” quando saíam as estimativas. Comparava com os grandes festivais de rock dos anos 60 e 70. Woodstock, com Jimi Hendrix, Janis Joplin, Joe Cocker, Santana e The Who? Teve no máximo 500 mil pessoas, e era um mar de gente. Ilha de Wight, com Hendrix, Miles Davis elétrico, Emerson Lake and Palmer e Gilberto Gil? Até 700 mil. California Jam, com Deep Purple, Black Sabbath e ELP? 250 mil. E eram mares de gente.

Neste ano, pela primeira vez, o Datafolha usou uma metodologia científica para calcular a multidão e chegou ao número de 270 mil participantes. Dos que participaram, apenas um em cada quatro fizeram o percurso completo.

Bem abaixo dos 4 milhões estimados pelos organizadores, que tratam o número como questão de opinião: “Na verdade, a gente não tem como mensurar. (…) Na minha opinião, se não superou os 4 milhões, ficou em 4 milhões”, disse o presidente da associação, Fernando Quaresma, à repórter Cristina Moreno de Castro.

Quatro milhões seria mais do que a população de qualquer município brasileiro que não seja São Paulo ou Rio de Janeiro. Também seria maior que a população de 15 Estados brasileiros, incluindo o Distrito Federal. 270 mil é mais do que a população de 98,4% dos 5.565 municípios brasileiros, o que não é nada desprezível.

O número encontrado pelo Datafolha equivale a três shows do U2 no Morumbi. No show do U2, faltou táxi, e os disponíveis eram superfaturados; no dia seguinte a cada show, os aeroportos de São Paulo ficaram impraticáveis. Mas foi menor que o comício das Diretas-Já no Anhangabaú.

No Twitter, já começaram a declamar Manuel Bandeira usando como mote o Datafolha.

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O instituto começou a desenvolver a nova metodologia no ano passado, após o esgrima de milhões entre a Parada Gay e a Marcha para Jesus.

Numa reportagem de Giba Benjamim Jr. para a revista São Paulo, o jornal mostrou que para caberem 4 milhões de pessoas nos 216 mil m² [EDITADO: antes, faltou o “mil”] do trajeto da Parada Gay, seria preciso amontoar 18 pessoas por metro quadrado. Se a concentração uniforme durante toda a parada fosse o aperto de um elevador lotado (três por metro quadrado), caberiam 666,7 mil pessoas. Se fosse a concentração irrespirável de um metrô lotado (seis por metro quadrado), seriam 1,3 milhão.

A editoria de Arte preparou até um teste para quem quisesse saber mais.

Neste ano, o Datafolha preparou uma nova metodologia, mais sofisticada, que permite traçar inclusive um perfil do público ao longo de um evento móvel. Pesquisadores entram na multidão e fazem perguntas aos participantes para saber por quanto tempo eles permaneceram – nem todo mundo fica do começo ao fim num evento longo, portanto a população não é estática. O novo cálculo estreou em 9 de abril, na Caminhada da Ressurreição, um evento católico. Veja os detalhes da metodologia aqui:

Na Parada Gay, o Datafolha encontrou 50% de homossexuais, 12% de bissexuais, 3% de transsexuais e 34% de heterossexuais. Mais da metade dos participantes (56%) eram homens. Em termos de educação, 55% tinham ensino médio e 39% tinham ensino superior. Mais da metade (53%) tinha até 25 anos. Veja os detalhes no infográfico abaixo:

Independente do tamanho do público, se foi astronômico ou “apenas” imenso, o importante é a mensagem deixada por um evento como a Parada Gay: não interessa o que os outros fazem lá na intimidade deles – no convívio em sociedade, todos são iguais e merecem respeito.

Esse respeito não vem da quantidade de participantes que eles levam à rua, e sim do fato de eles viverem, trabalharem e serem cidadãos como quaisquer outros.

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