Afinal de Contas

por Marcelo Soares

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Marcelo Soares escreve sobre dados e o que eles podem revelar

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Uma dieta de informação menos calórica faz bem

Por Marcelo Soares

Se você acessa muito a internet, sabe que existe informação que é como isoporitos: não tem valor nutritivo nenhum, mas se bobear a gente consome sem parar. Podem ser vídeos de gatos arteiros. Podem ser tweets de subcelebridades. Podem ser reality shows na TV, essa perda de tempo que gera muitos pontos no ibope e muitos pageviews em toda a internet brasileira. Você sabe que não tem “sustança”, mas consome mesmo assim.

Eu sei como é: sei todos os detalhes de cada formação do Deep Purple e de muitos universos paralelos dos gibis de heróis. São meus passatempos prediletos. O Chico Buarque gosta de impressionar os amigos com escalações de times dos anos 50. Cada um tem seu isoporito.

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Existe informação que é como salada: vem crua, mal e mal tem um temperinho, dá mais trabalho para digerir e tem um alto valor nutritivo. Essa informação pode estar nas planilhas do Censo, por exemplo. E também existe informação que é como um prato bem preparado: pega a informação crua, mistura cuidadosamente com outras informações, capricha na apresentação. Reportagens bem feitas são assim.

Essa comparação entre calorias nutritivas (ou não) e calorias informativas (ou não) vem de Clay Johnson, em seu livro “A Dieta da Informação“, recém-lançado no Brasil. Li o original no começo do ano, quando estava começando a perder peso basicamente por anotar (e portanto prestar atenção em) cada coisa que comia. Fez todo o sentido do mundo.

Tanto nos alimentos quanto na informação, houve uma explosão recente na oferta. Cada vez temos maior abundância – e o naco mais barato e mais fácil de obter tem menor valor nutritivo. É mais fácil, rápido e barato “almoçar” uma coxinha no bar da esquina do que almoçar um bom bife com salada – assim como é mais fácil ler sobre a última escapadela de celebridades do que mergulhar em informações que revelam dados sobre a população.

Segundo Johnson, a epidemia de obesidade de informação tem consequências tão complicadas para a saúde da cidadania quanto a epidemia de obesidade metabólica tem para a saúde de uma população. Mas ele sugere algumas formas de evitar:

  • Consuma conscientemente – saiba que tipo de informação está consumindo; tudo bem consumir besteira, desde que não seja o prato principal
  • Mantenha limpo – corte o acesso automático a fontes que só tomam tempo sem dar muito benefício
  • Consuma localmente – procure se manter informado sobre o que acontece na sua cidade ou no seu bairro; é tão importante quanto o que rola em Brasília, e mais relevante porque afeta diretamente sua qualidade de vida. Além disso, quanto mais distante está a informação, mais atenção você precisa prestar ao quanto ela foi processada até chegar a você
  • Baixo teor de anúncios – quanto menos exposto você estiver a distrações, especialmente aquelas que querem seu dinheiro, melhor, né?
  • Diversidade – procure não ler apenas quem concorda com você. Informação é diferente de afirmação. Eu, particularmente, evito ler os mais radicais; a vida é curta demais pra maltratar tanto o fígado
  • Equilíbrio – numa refeição balanceada, você equilibra as quantidades de carnes, arroz, feijão, salada, sobremesa e bebida. Numa dieta de informação balanceada, você balanceia o que lê – livros, gibis, sites de fofoca, jornais, informação bruta. Não precisa cortar nada, mas cada minuto além do razoável em que você assiste a um reality show é um minuto a menos além do razoável em que você lê um livro.

Johnson é um dos criadores do software RescueTime, que registra e classifica o tipo de informação que você consome na internet, mostrando quanto tempo você perde. Eu uso e acho fascinante.

Por isso, e pelo fato de o original ter saído pela editora de livros técnicos O’Reilly, eu esperava que o livro fosse um pouco mais técnico. Às vezes, a leitura resvala na auto-ajuda. O autor às vezes estica demais sua metáfora, também. Como li a edição original, não tenho o que dizer sobre a qualidade da tradução brasileira.

De qualquer maneira, as dicas são muito boas. Recomendo muito o livro, especialmente se você é estudante ou professor de qualquer coisa.

Qual o seu isoporito de informação favorito e como você lida com a sobrecarga de informação? Conte aqui nos comentários.

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