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por Marcelo Soares

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Marcelo Soares escreve sobre dados e o que eles podem revelar

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Matemática ruim impede o Brasil de aproveitar marés de dados

Por Marcelo Soares

Um curioso outro dia precisou ensinar um programador a calcular média aritmética. Parece inusitado, mas uma reportagem da Folha mostra que isso não é incomum. Segundo o repórter Helton Simões Gomes, a falta de conhecimento em matemática impede o desenvolvimento do setor de tecnologia de informação no Brasil.

“Com mercado de trabalho empregando 1,2 milhão de profissionais, o Brasil forma 85 mil, segundo a Brasscom (associação das empresas de tecnologia). O México, principal rival regional, forma 115 mil e tem 600 mil vagas”, diz a reportagem. Em 2010, empresas já diziam que precisavam contratar no exterior para desenvolver TI no Brasil.

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Matemática é pedra no caminho do setor tecnológico (Folha)
Escassez de mão de obra especializada leva companhias a contratar no exterior (Valor Econômico, 2010)
How Target Figured Out a Teen Girl Was Pregnant Before Her Father Did (Forbes, com matéria do New York Times)
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Três habilidades são necessárias para trabalhar com tecnologia da informação: matemática, lógica de programação e inglês. Este último está deixando de ser problema. De acordo com levantamento da Brasscom, o entrave é a matemática, mal ensinada na educação básica.

Isso se reflete na qualidade dos produtos e serviços eletrônicos disponíveis no Brasil. Reflete-se até mesmo na quantidade de startups tecnológicas que apresentamos ao mundo. No levantamento da FastCompany sobre as 50 empresas mais inovadoras do mundo, o Brasil tem duas: a Boo-Box, de anúncios em mídias sociais, e a Bug Agentes Biológicos, que substitui pesticidas por insetos liberados de avião. É excelente termos ambas, mas é pouco no sétimo maior mercado mundial de TI.

O sucesso inicial do Google, criado no final dos anos 90, se devia a um algoritmo complexo que calculava a relevância de uma dada página ponderando pelo número de referenciadores nos resultados.

Na época, aqui no Brasil, nosso buscador nativo se chamava “Cadê”. Era basicamente um catálogo de páginas. Funcionava, mas não calculava relevância. Estava anos atrasado em relação ao que de melhor havia no mercado. Desde então, nunca mais ouvi falar de nenhum buscador nacional. “Não precisa, tem o Google”, alguns dirão. Será? Tenho dúvidas, e olha que eu uso bastante o Google.

Um dos aplicativos mais fascinantes que tenho usado para ler notícias e artigos que me surpreendam chama-se Zite. Ele está disponível para o iPad. A partir dos assuntos em que eu informei ter interesse e do que eu li e deixei de ler, do que eu marquei que gosto e do que eu marquei que não gosto, do que minhas redes sociais recebem ou deixam de receber, o Zite “aprende” que tipo de texto eu posso gostar de ler. Quanto mais eu uso, mais preciso ele fica.

O algoritmo é bastante complexo, segundo o blog deles. Este é o diagrama:

Zite

Todos os aplicativos relacionados a noticiário que eu conheço no Brasil funcionam basicamente pegando notícia de lá e trazendo para cá, sem muita inteligência por trás. Sempre se pode esperar pela versão traduzida dos aplicativos gringos. Mas é uma oportunidade que se perde.

Outra área relevante é a de garimpagem de informações nos dados produzidos por uma empresa para descobrir onde mexer para melhorar o desempenho. Sempre que ouço casos de sucesso em “business intelligence” e “data mining”, são casos de fora do Brasil. O mais recente é o da grife Target, que detectou a gravidez de uma adolescente antes mesmo que seu pai soubesse.

Não que as modas quantitativas não cheguem ao Brasil. Chegam, mas como item de despesa. Quando a moda eram sistemas de ERP (planejamento de recursos empresariais), as empresas gastaram grana pra comprar. Agora, a moda é falar em “big data”. E dê-lhe grana em novos sistemas. Quero conhecer os resultados, você conhece?

O problema: cada vez mais as empresas e indivíduos produzem dados. Esses dados ficam lá, guardadinhos, esperando serem “entrevistados” para contar alguma coisa. E o Brasil pouco aproveita. Quem aproveita? O Facebook, por exemplo, de maneira muito complicada para a privacidade dos usuários.

Quero conhecer casos brasileiros de uso inteligente das possibilidades dos dados. Mas parece que a falta de conhecimento matemático impede até mesmo que eles surjam.

Você conhece casos para apresentar? Conte aqui.

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