Afinal de Contas

por Marcelo Soares

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Marcelo Soares escreve sobre dados e o que eles podem revelar

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Bicicleta é mais rápido que moto e a pé será mais rápido que de carro

Por Marcelo Soares

Todo ano, perto do Dia Mundial Sem Carro (22.set), o instituto CicloBR promove o Desafio Intermodal. Nele, diversas maneiras de se locomover pela cidade são testadas num horário de trânsito pesado, em dia de semana, no mesmo trajeto de dez quilômetros. É uma maneira inteligente de fazer um “test-drive” do principal problema de São Paulo: a dificuldade de se locomover na cidade.

Neste ano, a notícia foi que a bicicleta chegou apenas dois minutos depois do helicóptero. Mas o que isso significa em termos de como nos locomovemos em São Paulo?

Solicitei ao instituto CicloBR os tempos de cada modal em cada um dos anos, desde o primeiro, em 2006. A série varia muito; em alguns anos inclui helicóptero, em outros não. Em alguns anos, há ciclista homem e ciclista mulher. De vez em quando entra monociclo, patins, skate, cadeirante. Mas apenas cinco modais estão lá praticamente todos os anos.

Fiz um gráfico de linhas mostrando apenas esses modais.

Três conclusões a respeito:

1) Com a inauguração das estações da Linha Amarela e a integração do Bilhete Único, ficou mais rápido se deslocar de ônibus + metrô pela cidade. Não dá pra dizer que seja exatamente confortável no horário de pico, mas depois de conseguir entrar, o metrô anda. Só que isso deu uma piorada no último ano: demora mais para entrar no metrô.

2) Quem vai de bicicleta já chega mais rápido do que quem vai de moto. Pode desviar tanto quanto, e é diferente a relação no trânsito.

3) Esta é a mais impressionante: ano a ano, ir a pé não ganhou tanta velocidade assim. Mas ir de carro perdeu velocidade, progressivamente, nos últimos três anos. Tanta que encostou. Quem foi a pé chegou um minuto depois de quem foi de carro, e é perfeitamente provável que no próximo ano chegue mais rápido.

O que já é o maior problema de São Paulo tende apenas a piorar.

Todos os prefeitáveis tratam do tema, de um jeito ou de outro. Mas, pelo que vejo, eles apontam fragmentos de política pública. Se pegar uma pecinha de cada um, talvez dê para montar uma proposta quase boa.

É preciso transporte público rápido, eficiente, bem planejado, de pagamento razoável; praticamente todos os candidatos tocam no tema, de um jeito ou de outro. É preciso melhores corredores de ônibus; isso já virou piada em programas eleitorais. É preciso restringir o estacionamento de carros junto ao meio-fio, para dar mais vazão ao trânsito; isso eu não vejo ninguém falar. É preciso descentralizar a criação de empregos; já vi ao menos dois candidatos falando nisso.

A medida mais importante, que seria tomar medidas para restringir a circulação de carros, nenhum prefeitável topa sequer discutir. Ainda hoje, pela manhã, o candidato José Serra se manifestou contra medidas do gênero na sabatina Folha/UOL. Manifestou-se contra o pedágio urbano e a ampliação do rodízio de carros. Outros candidatos com chances eleitorais provavelmente também evitariam o tema.

O pedágio urbano funciona bem em Londres para desafogar o trânsito. Eles têm um excelente sistema de transporte público, claro, mas condicionar uma coisa à outra é criar um paradoxo de ovo e galinha.

Se primeiro precisar ter mais ônibus para só depois ter menos carros, não terá espaço para os ônibus andarem e a tranqueira continuará igual. Se primeiro precisar ter mais metrô para só depois ter menos carros, estamos jogando a questão para daqui a duas administrações. Enquanto isso, em 2010 a cidade ganhava 1.200 novos carros por dia. Hoje deve ter aumentado. Isso gera mais concorrência por um espaço que não aumenta, e portanto matematicamente gera mais tranqueira.

O problema real de debater o tema é um só: a medida é impopular, e todo mundo que tem habilitação de motorista também tem título eleitoral.

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