Afinal de Contas

por Marcelo Soares

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Marcelo Soares escreve sobre dados e o que eles podem revelar

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O que concluir dos mapas do Nobel

Por Marcelo Soares
Máscara mortuária e testamento de Alfred Nobel (1833-1896). Foto: Diógenes Muniz/Folhapress

Os últimos agraciados com o Nobel em 2012 foram os de Economia.

Alvin Roth, 60, da Universidade Harvard, e Lloyd Shapley, 89, da Universidade da Califórnia, conquistaram o Prêmio Nobel de Economia de 2012 por pesquisas que mostram como unir diferentes agentes econômicos, como estudantes e escolas ou doadores de órgãos e pacientes.

(A bem da verdade, eles não receberam exatamente o Nobel – foram os vencedores do “Prêmio do Sveriges Riksbank em Memória de Alfred Nobel”. Essa categoria foi criada apenas em 1970, e o primeiro agraciado foi Paul Samuelson – o autor do clássico “Introdução à Análise Econômica”, editado desde 1948 e hoje em sua 19ª edição brasileira.)

Pelo mapa dos vencedores, o prêmio de economia também está todo concentrado no hemisfério Norte.

O que se depreende da série de mapas publicada aqui é que, nas ciências de maior rigor, ganhar o Nobel está relacionado a grana para pesquisa.

Saiu um ensaio bem-humorado correlacionando o prêmio Nobel ao consumo de chocolate, mas não vá se empanturrar. Correlação não é causa, e confundir um e outro leva a conclusões absurdas. Pesquisa científica e consumo de chocolate estão correlacionados, sim, mas são influenciados por um fator externo: a disponibilidade de grana para ir além das necessidades básicas.

Mesmo países onde muitos não têm grana para comprar chocolate têm histórias para contar. Daí o Nobel de literatura ter uma distribuição tão global. Mesmo países que não têm grana para pesquisar os mistérios dos átomos têm de encontrar soluções criativas para os eternos problemas de convívio. Daí o Nobel da paz ter saído para países muito mais pobres que o Brasil.

E nós com isso?

Não somos mais um país assolado por guerras e ditaduras, mas ainda não somos um país com grana sobrando para investir em pesquisa. Até porque a corrupção não deixa sobrar muita grana.

Pela planilha do Nobel, o único premiado que chegou a ter alguma relação concreta com o Brasil foi Peter Brian Medawar, Nobel de Medicina em 1960. Ele nasceu no Rio de Janeiro, mas era britânico e fez suas pesquisas no Reino Unido.

Nobel de Medicina ainda deve demorar muito a chegar, num país onde algumas enfermeiras têm a desnoção de administrar café e sopa na veia dos pacientes. Sim, o neurocientista Miguel Nicolelis é brasileiro. Só que ele trabalha onde mesmo? (Se dependesse de torcida, porém, eu vestiria a camiseta do time Suzana Herculano-Houzel.)

Nobel de Química e de Física também deve demorar um tanto, pelo pouco que se investe em pesquisa.

Mesmo sendo o Brasil um país pacífico, ainda precisamos comer muito feijão para concorrer ao Nobel da Paz. A participação brasileira no Haiti, a jogada para baixo do tapete da decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos sobre a anistia, a incessante guerra do tráfico no Rio, a morte de gente como moscas nas estradas… tudo isso depõe contra.

Nobel de Economia já tivemos chance. O Brasil desenvolveu soluções sofisticadas de política pública para lidar com o flagelo da inflação nos anos 80 e 90. O mais especializado economista e o mais simples adolescente precisavam lidar com moedas e índices, em operações sofisticadas. Aprendi a fazer regra de três por causa disso, para prever quanto custaria meu gibi no mês seguinte. O colega Ygor Salles lembra que nosso sistema bancário é de uma complexidade rara no mundo por causa da alta inflação dos anos 80.

Aquele momento passou; hoje, os problemas são de outra ordem e não sei como está a pesquisa econômica no país. Shikida, eu sei que você está lendo este post. Está intimado a comparecer aos comentários, por favor.

Onde acho que talvez tenhamos chance é no Nobel de Literatura. Histórias para contar não faltam. Grandes inovadores da linguagem, como Ferreira Gullar, ainda estão por aí para contar a história. Um escritor popular como Paulo Coelho também tem forte ressonância internacional, embora faça literatura de consumo.

Claro que o Brasil não precisa ser um Sheldon Cooper, cujos grandes objetivos na vida são ganhar um Nobel e dominar o mundo (talvez não nessa ordem). Precisamos de pesquisa, e pesquisa boa, para desenvolver o país. E, se a pesquisa for excelente, que venha o prêmio.

Concluir isso não é “síndrome de vira-lata”, nem é “falar mal” do país, como alguns ufanistas podem, digamos, argumentar. É identificar fraquezas para trabalhar sobre elas.

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