Afinal de Contas

por Marcelo Soares

 -

Marcelo Soares escreve sobre dados e o que eles podem revelar

PERFIL COMPLETO

Publicidade

Como se mede a felicidade?

Por Marcelo Soares

(Escrito em 3 de abril)

Hoje, em Mercado, a correspondente Verena Fornetti entrevista o Nobel de Economia Joseph Stiglitz sobre a proposta de um √≠ndice que me√ßa a felicidade dos pa√≠ses. Stiglitz participou de uma confer√™ncia da ONU sobre a cria√ß√£o do √≠ndice de Felicidade Interna Bruta – que gerou o World Happiness Report, publicado hoje. O Brasil est√° em 25¬ļ lugar.

Na entrevista à Folha, o economista afirma com razão que o PIB (Produto Interno Bruto) é insuficiente para medir o bem-estar de uma população. O problema é como calcular um índice mais suficiente.

Stiglitz tem no currículo a implantação de um índice semelhante na França, e logo nas primeiras páginas do relatório (leia aqui, em inglês) são descritas as insuficiências do método proposto por ele Рmais ou menos as mesmas mencionadas por Jeffrey Sachs e seus colegas no relatório da ONU lançado hoje. Toco no assunto mais à frente.

Hoje, o √≠ndice mais universal que vai al√©m do PIB √© o √ćndice de Desenvolvimento Humano. Vale a pena olhar um pouco da hist√≥ria dos diferentes √≠ndices de compara√ß√£o de economias para ter uma ideia da complexidade da empreitada em que Stiglitz se meteu.

Criado pouco após a Segunda Guerra Mundial, lidando apenas com grandezas contáveis, o PIB é na verdade um cálculo sobre tudo o que um país produz em dinheiro:

 PIB = C + I + G + (X РM)

Onde:

C = consumo interno
I = investimento bruto
G = gastos do governo
X = exporta√ß√Ķes
M = importa√ß√Ķes

√Č uma f√≥rmula conhecida de qualquer cidad√£o que tenha estudado o b√°sico de economia (prestando aten√ß√£o). √Č f√°cil de entender, usa elementos que todo governo naturalmente contabiliza e permite tirar conclus√Ķes a partir de aritm√©tica simples.

A mais simples √© o PIB per capita, ou quanto cada habitante de um pa√≠s teria ganho em m√©dia no ano se um mendigo e o Eike Batista ganhassem exatamente a mesma coisa. √Č uma medida insuficiente, como se v√™, mas permite comparar pa√≠ses. Proporcionalmente √† sua popula√ß√£o, o Brasil √© um pa√≠s mais rico que o Peru e mais pobre que o Uruguai.

As conclus√Ķes mais complexas geram grandes debates entre economistas e governos. Por exemplo: se os gastos do governo crescem al√©m do que √© previsto para o crescimento do PIB, √© sinal de que ou o governo vai apertar o cinto nos investimentos ou vai tomar medidas que restrinjam o consumo. Outro exemplo: se as importa√ß√Ķes crescem muito al√©m das exporta√ß√Ķes (o que significa que o pa√≠s gasta mais dinheiro fora do que recebe dinheiro de outros pa√≠ses), ou os consumidores, ou os gastos do governo, ou os investimentos ter√£o de colocar z√≠per no bolso.

Repare, porém, que ela não trata do quanto um povo é saudável ou educado Рou, enfim, feliz. O PIB pode ser alto num país tremendamente desigual, por exemplo.

Em 1990, a ONU adotou um √≠ndice que leva em conta esses fatores de bem-estar: o IDH (√ćndice de Desenvolvimento Humano). Sua f√≥rmula j√° √© um tanto mais complicada que a do PIB, ponderando atualmente a expectativa de vida ao nascer (sa√ļde), o √≠ndice de educa√ß√£o (formado pelo √≠ndice de anos m√©dios de estudo e o √≠ndice de anos esperados de escolaridade) e o √≠ndice de renda (baseado no PIB per capita).

Apesar de serem medidas mensur√°veis, calculadas pelos Censos, essas grandezas consideradas pelo IDH j√° causam pol√™mica – especialmente da parte de quem aparece como menos desenvolvido quando o √≠ndice √© divulgado. No ano passado, segundo um ministro, o ex-presidente Lula ficou “irad√≠ssimo” com a posi√ß√£o do Brasil no ranking do IDH. Embora estivesse melhor do que a China, o pa√≠s aparecia como bem pior do que a Argentina. (Veja aqui a lista completa.)

O problema é que cada país mede essas grandezas de um jeito. E nem sempre, como é da vida, a medida escolhida pela ONU é a que deixa todos os países bem na foto ao mesmo tempo. Podia ser outra medida? Podia. E isso dá espaço para longos debates Рmuitas vezes pertinentes, embora preciosistas.

Agora imagine a queda-de-braço política que será adotar mundialmente um índice mais complexo, que na tentativa de medir a felicidade leve em conta:

1.¬†¬†¬†¬†¬†¬† Bem-estar econ√īmico. Segundo a proposta, uma pondera√ß√£o de pesquisas de opini√£o com a popula√ß√£o e estat√≠sticas de d√≠vida do consumidor, renda m√©dia, infla√ß√£o e distribui√ß√£o de renda.

2.¬†¬†¬†¬†¬† Bem-estar ambiental. Tamb√©m ponderando pesquisas de opini√£o com a popula√ß√£o e estat√≠sticas ambientais, incluindo polui√ß√£o, ru√≠dos e tr√Ęnsito.

3.      Bem-estar físico. Ponderando estatísticas sobre doenças severas, por exemplo.

4.      Bem-estar mental. Ponderando também pesquisas de opinião e estatísticas como as de uso de antidepressivos e procura por psicoterapia.

5.¬†¬†¬†¬†¬† Bem-estar no trabalho. Ponderando pesquisas de opini√£o com estat√≠sticas de seguro-desemprego, mudan√ßa de emprego, reclama√ß√Ķes sobre o trabalho e a√ß√Ķes trabalhistas.

6.¬†¬†¬†¬†¬† Bem-estar social. Ponderando pesquisas de opini√£o e estat√≠sticas sobre discrimina√ß√£o, seguran√ßa, div√≥rcio, brigas familiares, a√ß√Ķes judiciais sobre quest√Ķes familiares, processos e taxa de criminalidade

7.      Bem-estar político. Ponderando pesquisas de opinião e índices sobre a qualidade da democracia local, liberdade local e conflitos estrangeiros.

As dimens√Ķes s√£o basicamente as mesmas propostas por Stiglitz. N√£o parece ruim, levando em conta apenas o valor de face dos elementos. √Č razo√°vel observar o uso de antidepressivos como um indicador de bem-estar mental, por exemplo. S√≥ que tudo isso √© algo muito complexo, e que enfrenta dois problemas muito s√©rios:

¬ß¬† D√° muita margem √† subjetividade, ao usar pesquisas de opini√£o como base ponderada para boa parte dos √≠ndices. A Transpar√™ncia Internacional, por exemplo, produz anualmente um √≠ndice de percep√ß√Ķes de corrup√ß√£o. Ele √© basicamente uma pesquisa de opini√£o. Mas, por se basear em percep√ß√£o, est√° exposto a uma subjetividade tal que pa√≠ses mais pobres acabam naturalmente percebidos como mais corruptos e a Su√≠√ßa, um tradicional para√≠so fiscal, apare√ßa como pouco corrupta. Essa proposta de √ćndice de Felicidade n√£o se fia apenas nas percep√ß√Ķes, mas isso √© um flanco aberto a cr√≠ticas.

¬ß¬† Quando usa estat√≠sticas, n√£o leva em conta a disponibilidade de estat√≠sticas compar√°veis ao redor do mundo. Por exemplo, at√© onde eu saiba a Anvisa n√£o mant√©m estat√≠sticas sobre o uso de antidepressivos no pa√≠s – mal e mal mant√©m dados desconexos sobre roubo de cargas de medicamentos, ali√°s. A taxa de criminalidade, tamb√©m, sofre de severos problemas de subnotifica√ß√£o (eu, por exemplo, n√£o registrei ocorr√™ncia policial quando fui assaltado e perdi uma c√Ęmera, h√° alguns anos), distor√ß√Ķes volunt√°rias e metodologias que variam de Estado para Estado – imagine de pa√≠s para pa√≠s.

Claro que a ONU pode recomendar que os países uniformizem suas estatísticas a fim de poder adotar um índice tão abrangente. Mas ela não tem o poder de forçá-los a fazê-lo. Ainda que convença as ONGs dos países, ou que eventualmente conquiste apoio de vários políticos, seria preciso ajustar práticas no Executivo, no Legislativo e no Judiciário em esferas nacionais, estaduais e municipais para chegar a tudo isso.

(Vale a pena, ali√°s, mencionar um aspecto relevante. Nos √ļltimos anos, o tema entrou em debate p√ļblico e virou uma esp√©cie de moda de nicho. A√≠, v√°rios institutos passaram a tentar medir a felicidade. A Funda√ß√£o Get√ļlio Vargas j√° faz h√° alguns anos uma pesquisa sobre a sensa√ß√£o pessoal de felicidade, em parceria com o instituto Gallup, de pesquisas de opini√£o p√ļblica. Segundo essa pesquisa, o Brasil √© tetracampe√£o. Sempre √© not√≠cia – como foi, no come√ßo de mar√ßo. O problema: esse √≠ndice n√£o √© o que est√° em discuss√£o internacionalmente. )

Quem foi que disse que é fácil chegar à felicidade?

Blogs da Folha